Eu sempre lhe escrevi cartas de raiva ou magoa mas hoje lhe escrevo por saudades somente. O que me incomoda é a quantidade com que ando sentindo isso, e não é só de você, mas de muita gente e de muita coisa.
Nunca gostei desse sentimento, sempre que ouvia um 'ah, mas sinto falta' ficava com a impressão de que a pessoa sentia mesmo era descontentamento com o presente, uma vontade de parar no tempo. Eu nunca gostei de gente parada.
Mas o que me acontece é o oposto, o hoje vai muito bem, obrigada. E mesmo assim a saudade parece ter me escolhido para morar.
E dessa vez o motivo é você, X. Sinto falta da sua risada e do jeito com que você segura o jornal, você não o faz como todo mundo, não sei explicar a sutil diferença que tem em como você faz, mas tem, e eu sei.
Mesmo sem contato por tanto tempo você ainda consegue reconhecer meu humor pela minha voz. Isso me assusta, você me assusta, por me conhecer tão bem ao mesmo tempo em que não faz ideia de quem eu seja.
Não estou lhe culpando X, já aceite que você não estava pronto e por isso decidiu que o melhor era ir embora. Só estou dizendo que sinto saudades, que gosto, amo você. Mesmo que não demonstre.
Mas só não demonstro porque não sei como faze-lo sem te assustar, não demonstro porque acho que seria como admitir que está tudo bem, e vem cá, sabemos que não está.
Mas isso também não é uma cobrança, por favor, não pense que é.
É só uma carta, querido X. Nada mais além disso.
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