Eu seria um bolero, desses que tu tem vergonha de dizer que ouve, carente e triste.
Todo mundo nasce querendo ser valsa, ópera, rock. Mas com lagrimas nos olhos, eu não tentaria te enganar, se eu fosse uma música ia querer ser dançada com o coração partido, com o peso que eu sei que todo mundo carrega.
Enquanto tocasse, e a música te acariciasse os ouvidos com delicadeza, eu rodopiaria silenciosamente e sem ritmo, envergonhada e quieta, ao seu redor e em volta de um você perplexo com tamanha exposição.
Entenda, eu nunca soube dançar, quando eu danço não é bonito, é desconfortável. Eu me exponho ao ridículo enquanto danço. Penso que o ridículo, que os risos, que tudo isso me envergonharia (e me envergonha) mais do ficar nua frente a uma multidão. Eu sei, o orgulho é mais perigoso que uma chuva de facas.
Sabe, eu não escolhi o bolero ao acaso, eu tenho vergonha de dançar e dificilmente as pessoas admitem gostar de coisas como o bolero, esse amor sofrido e exposto, as pessoas se envergonham de não serem correspondidas, como se de alguma forma sofrer fosse motivo de vergonha.
Eu tenho vergonha de dançar, por isso escolhi o bolero, por isso só danço ao seu redor quando minha música tocar se minha musica tocar, dificilmente alguém toca bolero em festas.
Eu tenho vergonha de dançar.

3 relevaram:
Pare de escrever tão bonito. Mentira, continue. Amei esse texto, ficou perfeito demais!
Pare de escrever tão bonito. Mentira, continue. Amei esse texto, ficou perfeito demais! [2] - "Sem mais, tudo que eu queria dizer, alguém disse antes de mim!"
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